Introdução
“Apareceu em seguida um grande sinal no céu, uma mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas”( Ap 12.1).
Maria é hoje a maior evangelizadora da Igreja; é a “Estrela da Evangelização” como lhe chamou o Papa Paulo vi, na encíclica “Evangelii Nuntiandi”(n 82).
Acredito estarmos vivendo uma época histórica na qual está se dando um verdadeiro reflorescimento da força mariana. Nunca como hoje sua presença foi tão marcante em nosso meio, suas mensagens e lágrimas ( das aparições legitimamente reconhecidas), são testemunhos eloqüentes de que ela é, de fato, nossa mãe, preocupada com a salvação de cada filho que o senhor ao morrer lhe confiou aos pés da cuz. O dogma de mãe de Deus quer expressar de modo digno a grandeza dessa grande mãe que por mais que escrevamos ou falemos sobre Ela ainda faltará alguma coisa, que sem sombras de dúvidas coisas magnânimas.
MARIA MÃE DE DEUS.
A maternidade humana e divina de Maria foi expressa de forma solene no concílio ecumênico de Éfeso em 431. Esta maternidade está a serviço do desígnio histórico-salvifico de Deus. O desígnio de Deus é querer realizar-se fazendo-se homem. Querer ser homem, vale dizer, autocomunicar-se totalmente a um diferente dele mesmo. Maria gera um homem que é Deus, gera um Deus que é verdadeiramente homem.
A maternidade humana de Maria é conseguencia de um consentimento. Foi Deus que assim o dispôs: não quis que sua obra fosse a invasão de sua onipotência, dispensando a presença da liberdade humana; preferiu que ela brotasse do exercício desta mesma liberdade. Por isso, Deus precisa da mulher no ato mesmo que prescinde do homem. Maria consentiu porque creu e concebeu crendo.
Ser mãe significa dar origem a alguém por geração. Maria é mãe de Deus não num sentido formal e re-duplicativo, mas é mãe de Deus enquanto Deus é encarnado.
A maternidade de Maria implica uma série de relações: relação com a Santíssima Trindade. No mistério da anunciação que se realizam em duas missões divinas: aquela do Espírito que desceu sobre Maria e aquela do verbo que com seu consentimento começou a formar-se homem em seu seio. O Pai não fica excluído porque é Ele que envia o filho e o Espirito e neles mantém sua presença misteriosa.
Relação especial para com o Pai; o Pai gera eternamente a pessoa do filho espira o Espírito Santo. Toda a força gerativa que se comunica ao filho, intratrinitariamente, procede do Pai. Relação especial para com o filho: como existe uma dupla geração uma eterna e outra temporal assim existe também uma dupla filiação do verbo: uma eterna pelo Pai e outra histórica por Maria. Num extremo ele procede do Pai, no outro extremo Ele procede de Maria.
Em Jesus encontramos muito de Maria, ela se vê prolongada e reproduzida em Jesus. Relação especial para com o Espírito Santo: históricamente é o Espírito Santo a força geradora da realidade humana do filho eterno no seio da virgem Maria.
Assumindo a natureza humana, ela como a mãe de Jesus e de Deus, fica indissoluvelmente associada á união hipostática. O Espírito que gerou em Maria o filho histórico continua na história a gerar os filhos, os irmãos de Jesus. Maria é a mãe espiritual de todos os redimidos. Relação especial para com a Igreja, a Igreja constitui aquela porção da humanidade que explicitamente acolheu o dom da salvação em Jesus Cristo. Maria guarda uma relação única para com esta humanidade que pauta sua vida no seguimento de seu filho na força de seu Espírito. Como gerou Cristo, continua a gerar cristãos. Por isso, é mãe da Igreja.
Maria é toda santa, porque foi escolhida por Deus para nela e por ela realizar maravilhas de salvação. Ela é o lugar de duas divinas missões: do Espírito e do filho. Sua santidade só é comparável a de Cristo.
Enfoque antropológico: Aqui eu tomo as palavras de Leonardo Boff, “Deus quer evidenciar o novo começo da humanidade. Por um lado procede da terra, mediante Maria, por outro irrompe do céu pela força do Espírito”. Jesus é o encontro do céu e da terra “Pela virgindade Maria mostra uma existência totalmente centrada no serviço do messias, numa total disponibilidade ao desígnio de Deus”.
O homem nunca é somente um indivíduo, mas uma pessoa. Por passoa expressamos a especificidade do ser humano enquanto apresenta-se como capacidade para a comunhão ilimitada e para a produção de símbolos pelos quais confere significação ao mundo e á sua ação sobre ele. Não se pode jamais dissociar o eu do nós, o eu esta sermpre imbuído pelo nós, o eu existe encarnado num corpo, fincado no mundo, dentro de um espaço social, participando do destino da realidade que o circunda. Todos participam do destino de todos. Não só respiramos o mesmo ar, habitamos a mesma terra, somos cobertos pelo mesmo céu, mas principalmente participamos da mesma natureza humana. Esta solidariedade não é voluntáristica, não surge porque queremos, ela existe, independentemente, de nossas decisões, é um dado antropológico.
O sim de Maria á proposta divina de se humanizar a ligou definitivamente a toda a humanidade. Ela possui uma função única na história da salvação: seu sim pertmitiu que Deus tocasse a natureza humana. A carne de Deus pela qual se fez irmão nosso, é carne que recebeu de Maria. Maria representou toda a humanidade, e agora reforça mais profundamente esta sua união. Junto com seu filho Jesus, nenhuma outra criatura está mais perto e dentro do coração de cada homem do que Maria.
Enfoque sociológico: A sociologia, nos instrui sobre instrumentos e mecanismos de socialização, ou introjeção, defesa e legitimação de normas, valores e padões de comportamento, defendidos e exigidos principalmente pelos grupos dominantes da sociedade. O grupo de poder cria sinais, símbolos, palavras, pessoas que encarnam e personalizam seus valores, que lhe interessa “passar” para os membros da sociedade. Tais “grupos de referencia” são parâmetro referenciais e clichês comportamentais objetivando criar identificação, explorar e estimular o instinto de imitação para manutenção e coesão do sistema e estrutura social do grupo. Aqui, Maria é apresentada como mulher e mãe capaz de compreender a debilidade humana, restituir a confiança, a esperança, sobretudo aos marginalizados da sociedade. Ela é oferecida como sustentáculo, tábula de salvação modelo social, que garante coesão e armênia para o grupo. Contudo é inegável a estreita inter-relação ou mediação entre religiosidade e sociedade.” A interação religião e sociedade se deu históricamente na direção unidimensional da sociedade para a religiosidade, ou seja: no sentido da sociedade usar e instrumentalizar a religião e a religiosidade em vista de seus interesses”. Aqui entendo a Igreja hierárquica como grupo social que impõe tais interesses para o resto da sociedade.
Enfoque histórico: Foi em 428 que o patriarca Nestório começou a pregar que havia em Cristo duas pessoas: uma divina, como filho de Deus; outra humana, como filho de Maria. Por isso conclui o patriarca, que Maria não pode ser chamada mãe de Deus, mas simplesmente mãe de Cristo ou do homem. A conseguencia da negação da maternidade divina é a negação da redenção. Se as duas naturezas, a divina e a humana, não são hipostaticamente unidas em nosso Senhor Jesus Cristo, de modo a formar uma única pessoa, desaparece a Encarnação e a Redenção, porquanto o filho de Deus, não se tendo revestido de nossa natureza, não pode ser o nosso Redentor. Somente o homem Jesus sofreu.
Para exterminar completamente o erro, e restringir a unidade de doutrina ao mundo, o Papa resolveu reunir o concílio de Éfeso( na Ásia Menor) , em 431, convidando todos os bispos do mundo. Perto de 200 bispos, vindos de toda as partes reuniram-se em Éfeso, São Círio presidiu a assembléia em nome do Papa.
Nestório recusou comparecer perante os bispos reunidos; já na primeira sessão a heresia foi condenada. Os bispos cercando o Evangelho e o representante do Papa, pronunciaram unanimes e simultaneamente a definição proclamando que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus. isto depois de consultar os Santos Evangelhos e encontrar neles provas, que ajudaram a fundamentar e provar de fato que Maria é Mãe de Deus.
Enfoque teológico: Podemos dizer que o “título de mãe de Deus” dado a Maria era e é sensato, e necessário enquanto afirmação auxiliar da cristologia, este título veicula, de forma densa e incisiva, a verdade da humanidade de Deus na encarnação, dupla verdade a saber, que o filho de Maria é o filho de Deus, verdadeiramente Deus. Ser mãe de Deus significa que a virgem está totalmente dentro do movimento descendente da salvação, e, portanto, que o que é gerado por ela não é fruto de poder ou capacidade humana, mas só e unicamente da onipotência divina.
Maria é a mãe de Deus enguanto seu filho foi gerado desde a eternidade no seio do Pai e, por livre e gratuíta escolha de amor salvífico, é gerado no tempo pelo seu seio virginal na plena humanidade assumida por ele. Maria é a theotókos significa que o movimento descendente da graça entrou verdadeiramente na história do mundo e, portanto, que o que é gerado por por ela se fez verdadeiramente solidário com a nossa condição humana.
A relação funda-se no mistério da geração do filho e dos filhos no filho: como Maria está a serviço do mistério da encarnação, assim a Igreja permanece a serviço do mistério da adoção dos filhos, mediante a graça. Por fim somos estimulados ao amor filial para com a nossa mãe e á imitação de suas virtudes.
Enfoque devocional: Começo com a citação de Puebla: “Em nossos povos o Evangelho tem sido anunciado apresentando a virgem Maria como sua expressão concreta”. Maria é a voz que convida a união os homens e os povos. “A mãe de Jesus, como no céu, glorificada agora no corpo e na alma, é a imagem e a primícia da Igreja, que deverá ter seu acabamento na idade futura, assim na terra brilha como sinal de esperança segura e de consolação para o povo de Deus em marcha, até que chegue o dia do senhor( Cf. 2p, 3. 10),
Não podemos ignorar as manifestações da devoção do povo á Maria em toda parte. O povo busca em primeiro lugar o milagre, da proteção contra os perigos que marcam a vida do povo sem recursos; depois, e isso me parece muito importante, uma real identificação do povo com Maria, quando ele participa dos sentimentos de Maria em suas dores, ou em suas alegrias. Nossa Senhora das Dores . Nossa Senhora da Piedade é uma figura que comove. Basta contemplar as multidões que ainda hoje participam de uma procissão do encontro ou do Enterro, com um sentimento que traz para o hoje e o agora a Paixão e Morte de Jesus, com Maria a seu lado, o povo participa, sente-se oprimido e flagelado como Jesus, sofredor com sua mãe.
“Maria de Nazaré, pobre, mas consciente de sua importância, pois a proclamarão bem-aventurada, Maria na subida para o calvário e transpassada pela espada de dor ao pé da cruz, Maria na soledade, este é o mundo com que o povo se identifica, e que não podemos ignorar ” 2 Cleto caliman teologia e devoção
teologia e devoção maria no Brasil.
A piedade mariana tem sido com freqüência o vínculo resistente que conservou fiéis á Igreja setores que não contavam com atenção pastoral adequada.
Enfoque pastoral: Na história da América Latina, a presença da devoção e do culto a Maria sempre foi controvertida. A primeira geração da conquista foi marcada por muita violência religiosa, destruição da cultura religiosa indígena, em nome da pureza e verdade do cristianismo. Tudo valia para que não se perdesse a felicidade depois desta vida. Para os conquistadores Maria está sempre do seu lado contra os índios, considerados infiéis.
A partir da segunda geração da conquista, o culto a Maria começa a ser integrado aos costumes da América espanhola e portuguesa. A integração do culto a Maria não se deu de forma imediata e tranqüila. No período das guerras de independência em relação á Espanha e Portugal, Maria Santíssima tem um papel importante quando no período da colonização. Maria tem sido a grande companheira e mãe de muitas lutas populares na América Latina
O projeto que lança suas raízes na palavra de Deus, na história e na Tradição, que vai assumindo cotidianamente formas sempre novas originais dentro de seu simplíssimo cotidiano, e que vai sendo formado por pessoas pobres e sofredoras que se reúnem para refletir e celebrar sua vida e suas lutas á luz da palavra de Deus. E por isso são boa-nova. Maria foi e é também a concretização de um projeto acontecido no meio dos pobres.
A emergência das classes populares na Igreja, com sua bagagem cultural, traz uma contribuição original para nova experiência eclesial. Os pobres na Igreja guase sempre foram objeto de solicitude pastoral. Nunca foram considerados verdadeiramente em seu privilégio evangélico de primeiros destinatários do Reino, portanto, sujeitos de um “caminho” no seguimento de Jesus. Agora também os pobres fazem a experiência de serem sujeitos da fé eclesial, esse fato novo se torna um lugar hermenêutico privilegiado para refazer a figura de Maria hoje.
Conclusão
Maria é redescoberta na sua profunda ligação com o seu povo, na sua inserção na sua história religiósa, comprometida com o destino de seu povo. Como mulher profética, ela participa, ativa e corajosamente, da vida e do destino de Jesus, o filho de Deus, verbo encarnado e da vida e do destino da comunidade messiânica, fundada no seguimento de Jesus. Como discípula fiel, Ela se torna sinal de esperaça para o povo de Deus a caminho.
Na América Latina, no contexto do processo de libertação, Maria já não é mais associada ao mundo do conquistador, do opressor. Agora sua figura vai associada ao mundo do povo oprimido, ás suas aspirações e ás suas lutas.
Por fim, a mariologia deve receber um espaço adequado na formação presbítera, em função da profunda ligação e do interesse do povo de Deus com Maria, Isso certamente ajudaria a evitar exageros na devoção mariana, muitas vezes sugeridos e alimentados pelo próprio clero.





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